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Efeito Crónico

Crio escritos chistosos com relativa regularidade, que conjeturo possuírem nível para antologiar aqui. P.S: Este nível de literacia não é constante.

Voltas na campa

15.10.20 | Luís Marques

   Hoje o tema é sombrio. Vou falar sobre um acontecimento que recentemente descobri não ser tão peculiar como julgava. Trata-se de uma panóplia de histórias - que confesso achar do reportório mito urbano mas pela quantidade fez-me estar numa posição de transição entre continuar cético e acreditar - sobre funerais que não deviam ter acontecido.

   Eu explico melhor. Tratam-se de depoimentos que certos mortos tiveram o seu funeral, digno, respeitando as 24h de velório definido na constituição, mas que aquando da abertura do caixão para tirar as ossadas - já agora gostava de saber o que fazem ao caixão, é que a madeira costuma ser de boa qualidade - o corpo, ou melhor o esqueleto encontra-se numa posição que não a deixada. Isto é, o esqueleto sofreu uma rotação sobre o eixo longitudinal, levando a crer que o presumível cadáver realizou essa rotação. Não preciso de explicar o falta de coerência, pois não? O exemplo mais conhecido (que desconhecia) foi o cadáver de Carlos Paião, que diz-se ter sido encontrado assim. Eu pensei logo que quem faz sucesso com uma música chamada Playback, podia perfeitamente lembrar-se de fazer o mesmo com a sua morte. No entanto, explicaram-me que um acidente rodoviário lhe retirara a vida e isso já me fez ter outro ponto de vista, ou melhor dois: ou efetivamente morreu e com isso necessito de explicação para a posição encontrada ou então é um incrível duplo que teve azar de toda a gente presente no funeral não se aperceber que "quem estava a bater à porta de uma forma desenfreada" era dentro do caixão. De seguida os intervenientes que estavam comigo neste diálogo começaram-me a bombardear de situações equivalentes mas de pessoas fora do conhecimento público. Claramente, fiquei estupefacto. Pensava que era um acontecimento, com uma probabilidade baixíssima e, do pé para a mão, de uma amostra de 5 pessoas só 1/5 achava isso (eu).

   Sempre fui ligado à ciência e portanto não me contento sem uma explicação lógica. Visto isto, estive a pensar sobre o assunto. Baseei-me, unicamente, no caso de Carlos Paião, apenas porque pareceu-me o mais mediático e com maior coerência ente todos os depoimentos que me foram proferindo. Nisto a explicação mais lógica – a meu ver – do que possa ter acontecido: um miúdo, de geração recente, exposto e habituado a um género de música contemporânea em que se coloca em dúvida esta denominação que se atribui ao conjunto de sons ordenados e ritmados que ouve, terá sido interrogado sobre o conhecimento da música “Cinderela”. Tal questão que, possivelmente, ele mostrou abster-se de responder devido à pressão colocada por parte do interlocutor, de geração mais antiga, da hipotética hipótese de ele desconhecer tal clássico da música portuguesa acontecer realmente e isso ser uma vergonha para o miúdo. Obviamente que a abstenção demonstrada só indicou tal desconhecimento. Em consequência, surge a expressão “ O/A [Pessoa já falecida] (Neste caso, Carlos Paião) deve estar a dar voltas na campa.”, provocando tal posição do defunto.

   Conclusão, isto obviamente é um mito urbano que tendem a acreditar e passar de geração em geração. No entanto, para prevenir tais possíveis rotações, questões similares à descrita deviam ser questionadas em número par, para que a rotação seja de 360º e, assim, eliminar estas histórias e especulações que são sempre explicadas através de acontecimentos sobrenaturais que, posteriormente, só dificultam o descanso noturno das pessoas.