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Efeito Crónico

Crio escritos chistosos com relativa regularidade, que conjeturo possuírem nível para antologiar aqui. P.S: Este nível de literacia não é constante.

Pimba

31.07.20 | Luís Marques

   Hoje escrevo sobre um tipo de arte muito apreciado a nível nacional. Desde logo não é consensual definir como arte, porém está incluído no reportório musical e, por essa razão, de alguma forma se trata de arte. Até mesmo esta crónica não é uma mera descrição da influência deste género musical na população portuguesa mas também uma reflexão da capacidade dos indivíduos em distinguir o gosto da arte.

   Como todos sabemos, felizmente ou infelizmente, o género musical popular é muito vigente no nosso país. O chamado "Pimba", que pela onomatopeia utilizada para o designar mostra desde logo a essência da música. O tema é sempre o mesmo. Entre variantes, pode ser uma história amorosa, que desta diverge duas variantes, a bem sucedida e a trágica. Ou então, a mais corriqueira, os trocadilhos que se referem sempre de forma indireta ao ato de copulação e a tudo o que isso engloba.

   Sendo Portugal um país em que 1 em cada 5 habitantes possuem mais de 65 anos e tendo um historial, de há largos anos, de atividade rural, não é de estranhar que este género seja muito apreciado. Pelo que, o problema já não se trata da grande apreciação deste tipo de música mas da sua industrialização. Como todas a marcas influentes, em todo o mundo, que geram grandes quantidades monetárias, surgem sempre imitações rascas num mercado paralelo - contrafação. E o Pimba nao foge à regra. Claro que à nossa escala, a carreira pimba também gera alguns milhares, dando azo a imitações com menor qualidade musical. Digo imitações, porque não há que esquecer grandes cantores pimba que a meu ver, e distinguindo o gosto da arte, admito serem uma espécie de génios contemporâneos, apesar de não apreciar. Não é qualquer um que alcança um patamar literário ao nível de um "Banana Pêssego", "Qual é o melhor dia pra casar/ O 31 de Julho /Porque depois entra Agosto", entre outros. São exemplos de pensamentos que estão muito à frente do cidadão comum (Caro leitor, caso não perceba estas referências, peço-lhe que ouça as músicas. Não se vai arrepender!). Pelo que, a meu ver, devia de haver uma maior valorização destes pensadores do século XXI.

   Tenho a opinião que, hoje em dia, parece incompatível não gostar e reconhecer qualidade. Só em casos extremos, isto é, casos consensuais, é que esta compatibilidade se revela, por exemplo, a maioria das pessoas não aprecia o estilo de música mas penso ser consensual que Luciano Pavarotti tinha qualidade. No entanto como referi, o lucro que a música pimba propícia leva a que televisões e afins emanem a população com programas em que está presente este registo musical. Levando à necessidade de haver maior número de cantores, diminuindo a qualidade, negredindo toda uma estirpe de cantores inigualáveis, que vingaram pela sua qualidade, e cansando o resto da população que não aprecia esta música. Levando, desta forma, a que não se aprecie a qualidade, independentemente do gosto, e, consequentemente, cada vez mais o gostar ser condição para o reconhecimento de qualidade. Este processo de causa-efeito está a chegar a níveis extremos. Ainda no outro dia, num desses programas surge um "cantor pimba" - já irá entender as aspas - em que a música era pouco mais do que o seguinte verso: "Eu bem sei o que tu querias / era pão todos os dias". É assim... Uma pessoa facilmente entende o que o intérprete quer dizer, mas, também, não é assim. Não há um twist inteligente que o ouvinte precise de raciocinar para entender. São estes exemplos que vão cansado a sociedade e perpetuando a premissa que o pimba não tem qualidade. No entanto, os idosos presentes naquele encontro festivo estavam a adorar a atuação, criando ainda mais incompreensão e repúdio a quem não gosta. Um pequeno à parte, até me admira ninguém se indignar pela música discriminar os intolerantes ao glúten.

   Continuando, para ajudar este flagelo, uma característica comum a todas as músicas, os refrões são repetidos vezes sem conta, em que, mesmo não sendo orelhudos, acabam por entrar na mente e provocando ao ouvinte inocente o trauteamento inconsciente. Já aconteceu a toda a gente e provoca a vontade de administrar um golpe horizontal na traqueia.

   Ainda assim, há quem pense como eu e a prova disso são a maioria das queimas das fitas terem, pelo menos, um cantor popular, mas dos que têm qualidade. É bonito, porque o cantor tem qualidade, tal facto aceite por toda a gente, e os espectadores não fazem parte do target comum do estilo musical adotado pelo mesmo, surgindo assim uma estranha fusão, ao nível festivo, que resulta numa demonstração da Portugalidade que ascende nos presentes. Sendo sincero - e gosto de acreditar -, bem la no fundo, acho que a música popular tem significado para toda a gente. Para mim, não é S. João se não ouvir um bom pimba à moda antiga. Ok, eu aceito que digam que é música para parolos, acho o mesmo, mas com uma pequena diferença, que é a nossa música para parolos. Acho que os jovens deviam de ter este ponto de vista. No entanto, programas de domingo à tarde estragam todo este ambiente proveniente desde próximo da génese do nosso país.

   Ja debati sobre estes programas com várias pessoas e já me apresentaram argumentos que, realmente, fazem sentido. Como, por exemplo, os idosos não terem acesso à música, a não ser só na rádio, então é mais um momento para disfrutarem as suas músicas. Porém, contra argumento: Os gostos são muito diversificados, de tal forma que existem idosos que não gostam de pimba e são obrigados a ouvir. Agora quem é que me garante que esses idosos não se auto determinam a possuir Alzheimer para não decorarem estas letras que se repetem, repetem e repetem na mente!? Pensando bem, se calhar até era uma forma de cura, é que há músicas que nem o Alzheimer consegue desvanecer da memória. Bom... Sem querer, estou a levantar uma hipótese interessante. O prémio nobel da medicina ja esteve mais longe...

   Para finalizar, caro leitor, "e se elas querem um abraço ou um beijinho"... Desculpe, foi mais forte que eu. Aconselho-o, agora, a fazer meditação para controlar a mente.

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