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Efeito Crónico

Crio escritos chistosos com relativa regularidade, que conjeturo possuírem nível para antologiar aqui. P.S: Este nível de literacia não é constante.

Curriculum Vitae

10.01.21 | Luís Marques

   A palavra em latim que para muitos é uma ostentação e para outros um degredo. Para quem não sabe – portanto, indivíduos com mais de 40 anos e que toda a vida permaneceram no mesmo posto de emprego -, Curriculum Vitae é um documento que relata a trajetória educacional e profissional de uma pessoa. A entrega deste currículo representa a 1ª fase de admissão – ou não – numa instituição. Trocando por miúdos, o CV é equivalente à 1ª impressão num encontro amoroso. Como todos sabemos, se a 1ª impressão não for boa, maior dificuldade em entrar… e na empresa também.

   Eu já tive de fazer o meu currículo e, sinceramente, é uma das ocasiões em que mostramos, verdadeiramente, os nossos valores. É muito bonito andar ai a dizer que temos de ser verdadeiros e “deitarmo-nos na cama que fizemos”, mas depois de concluir o currículo e simularmos que somos um futuro patrão a vê-lo, toda a panóplia de valores que afirmarmos seguir começa a vacilar. Após se ver a big picture do currículo, um indivíduo começa a relativizar tudo, para dar mais sumo à coisa. Começa-se a pensar naquela vez que ajudamos a avó a atravessar a estrada, que meio já conta como voluntariado. Que no verão tivemos um mês a ajudar um amigo com as mudanças, então se calhar até conta como estágio em transporte e mudanças. No entanto, os tais valores começam a dar sinal, porque na verdade não foi um mês, mais sim 3 dias, pois ao levar o sofá pelas escadas deu-se um jeito às costas. Pensasse também se se pode albergar como experiência de babysitter aquela semana que se teve de tomar conta do sobrinho de 1 ano, quando os pais foram numa espécie de mini lua de mel para reavivar a chama da relação. Por um lado achamos que não fica bem, mas por outro foi uma semana tão penosa que é meritório incluir. Um pequeno à parte, acho que as campanhas de sensibilização para o uso de preservativo, na escola, deviam ser dando para as mãos um bebé. Não só incrementava a responsabilidade nos jovens, como era certinho que tinham cuidado na simulação do ato de procriar. Eu fiquei de tal forma traumatizado que, no posterior mês, o método contracetivo que usei foi a abstinência!

   Depois o que ocorre é que no dia seguinte – mais frescos – vamos dar uma revisão e não temos coragem de incluir a experiências que declaramos. Então qual é a forma de dar a volta? Carregar nas qualidades pessoais: mete-se adjetivos que nem se conhecia e adjetivos que basicamente são sinónimos uns dos outros. Há uma auto-bajulação tão intensa que se se parece mais boa pessoa que o Gandhi! Nisto, mais uma vez, faz-se outra revisão e o lápis azul da noção corta alguns adjetivos, porque, primeiro, não fica bem 15 adjetivos e, segundo, não se é assim tão narcisista.

   Finalmente, está concluída a elaboração do CV. O sentimento que ascende é de alguma vergonha, pois a leitura do currículo transmite a ideia de indolência. Se o próprio dono do currículo sente isso, fará quem o irá receber. O ego ainda tenta justificar tal aparência com os poucos anos de vida, mas a consciência não atende muito a isso. Começa-se a pesquisar por programas de voluntariado. O que até é uma boa ideia, pois não só enriquece o currículo, como ainda rende bastante no Instagram - #críticasocial.

   Portanto, a ideia de que o curriculum vitae é um papel que nos enaltece e faz-nos apelativos aos olhos de outrem, acaba por ter o efeito contrário. Revelando-se ser uma espécie de abre-olhos e motivando - à força - uma pessoa a fazer cursos e afins. Esperem aí, eu em 2014 fiz um curso intensivo de inglês, no verão, durante 1 mês! Era credenciado, portanto conta, não quero saber! Vou já meter! E ainda vou aumentar o tamanho da letra para parecer mais cheio – life hacks.