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Efeito Crónico

Crio escritos chistosos com relativa regularidade, que conjeturo possuírem nível para antologiar aqui. P.S: Este nível de literacia não é constante.

Aparência

25.07.20 | Luís Marques

   Recentemente falei com uma ex-namorada, a qual já não via há um tempo considerável. Como é obvio que adotei uma postura adulta, isto é, uma atitude madura e desprovida de qualquer rancor… Exatamente, claro que inventei toda uma qualidade de vida, assente numa sólida situação financeira, consequente do alcance de determinados objetivos e isto tudo dito de uma forma bastante humilde, através da prospeção de outros objetivos que estão, claramente, acima dos objetivos futuros da maioria das pessoas. Não me julguem! Eu tenho o meu ego e, aliás, com esta mulher em específico, ele já tinha ficado bastante afetado no passado! Isto acontece com toda a gente e uma mentirinha nunca fez mal a ninguém. Pois bem, o problema é que quando se entra neste “jogo” o difícil é parar. Quando dei por mim já estava numa “bola de neve”. E o leitor questiona-se: “E qual é o problema? Nunca mais a vai ver”. Ora ai está o verdadeiro problema. Não foi por obra do acaso que me cruzei com ela, mas sim devido à alteração de residência da mesma. Nomeadamente, para o prédio em frente ao meu. Para clarificar melhor o problema, vou enumerar uma série de perguntas corolárias do mesmo: Onde é que vou arranjar um Labrador castanho? (Ainda por cima castanho que são os mais raros e bonitos. Porra, porque é que sou bom a improvisar…). Onde é que vou arranjar uma emigrante argentina doutorada em saúde veterinária? Que desculpas vou inventar quando ela me vir sempre com o mesmo fato para o trabalho? Onde é que se arranja um fato barato!? Em relação ao carro ainda tenho uma semana. Disse que importei um Jaguar, fruto da minha promoção na empresa de vinicultura onde trabalho, na gestão do espaço das vinhas na região demarcada do Douro. Nem sei se isto faz qualquer sentido. Escusado será dizer que também não percebo nada de vinhos. Aliás, para mim é paradoxal haver um vinho verde tinto, tal é o meu nível de conhecimento.

   Mas em minha defesa, ela também se galanteou, para não ficar inferiorizada - como se não bastasse ter “saído por cima” no passado. Ninguém diz a uma pessoa, que já não vê há um tempo, que saiu de casa dos pais e foi morar sozinha. Mesmo a esfregar-me na cara que tem dinheiro para um apartamento e que é suficientemente independente e corajosa para enfrentar essa nova etapa da vida. E ainda referiu que comprou um Smart porque “é mais fácil de estacionar”, quando toda a gente sabe que o preço dos Smarts é inflacionado tendo em conta o carro que é. Inclusive, até fui pesquisar e é mais caro que o meu carro… e o meu é de 5 portas! Acho que não preciso de dizer mais nada. É de caras como não perdeu a necessidade de mostrar que não lhe afetou o que ocorreu no passado. E já nem estou a referir a tentativa de convite por parte dela para “nós”, eu e a minha suposta namorada atual, irmos lá casa. Só para poder julga-la e concluir que fiquei com uma pior e tudo isto com a desculpa de provar o vinho da minha empresa. Sinceramente…

   Parece que agora não vou andar descansado nas imediações da minha casa. Ainda bem que na altura em que trocávamos fluidos orais – é mais fácil para minha recordar com esta perspetiva – não a apresentei aos meus pais. Qualquer coisa, a minha mãe é a senhora das limpezas e o meu pai ainda estou a tentar encontrar uma profissão que se adeqúe. Óbvio que pensei no típico jardineiro - até porque o meu pai tem um bom carro - só que resido num apartamento. Uma pessoa num apartamento, no máximo, ou tem um bonsai ou um grão de bico envolvido em algodão molhado dentro de um garrafão cortado a meio para dizer que tem o hobby de agricultura biológica na varanda.

   Reparei ainda que trazia um livro debaixo do braço. Certamente com o intuito de mostrar que é culta, mas vá isto já é tão usual que até deixo passar. Porém, tratava-se de um romance de Nicolas Sparks, o que me deixa profundamente irritado! Se ela quer uma história de amor e ser compreendida neste âmbito, porque é que me… bom, não vou “lavar roupa suja” aqui. Todavia, pensando bem, é característico de Sparks o plot twist dos casais reatarem ao fim de um tempo… Querem ver que já fiz asneira. Posso sempre dizer que o Labrador faleceu de displasia da anca e que tal perda afetou a relação com a argentina, culminando na separação. Não só “mato dois coelhos numa cajadada só” como ainda lhe dou a dica que estou carente de apoio emocional. Agora só falta uma explicação plausível para ser despedido após ter sido promovido. Hei, e ainda tenho a questão do carro… O mundo das aparências é realmente complicado. Um conselho, caro leitor, ouça mais e fale menos!

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